Conjuntura da carne bovina no mundo e no Brasil

Fabiano Alvim Barbosa

Médico Veterinário, M.Sc.
Doutorando Produção Animal
Professor Pós-Graduação
Universidade de Brasília
fabianoalvim@unb.br

Lívio Ribeiro Molina

Médico Veterinário, M.Sc.,
D.Sc. Professor Adjunto
Escola de Veterinária – UFMG
lmolina@vet.ufmg.br

1 - INTRODUÇÃO

   O Brasil possui o segundo maior rebanho mundial, sendo superado pela Índia, mas esse país não utiliza a pecuária bovina com fins comerciais. Com o maior rebanho comercial do mundo o Brasil é o maior exportador de carne em toneladas, entretanto, ainda possui taxas produtivas (abate, produção de bezerros) abaixo dos seus maiores concorrentes. A Austrália é o maior exportador mundial em valor. Na última década, os Estados Unidos (E.U.A), União Européia (U.E.), Austrália e Índia apresentaram estabilidade da produção mundial de carne bovina e até mesmo queda em certos anos, isto acontece também com o volume de exportação (Tabela 1).

Sendo assim, o Brasil tem como manter sua hegemonia na exportacão de carne bovina, por ter vantagens com relação a expansão horizontal, crescimento em terras não exploradas, e expansão vertical, incremento da produtividade (melhora na taxa de desmama, de abate e precocidade do rebanho), mas para isso tem que melhorar os aspectos de segurança sanitária e certificação de qualidade de origem (rastreabilidade) do rebanho que podem colocar em risco todo o trabalho conquistado até agora.

Tabela 1 – Balanço da pecuária bovina de corte mundial.

  Brasil Índia China E.U.A. Austrália U.E.
Anos 2005 2006 2005 2006 2005 2006 2005 2006 2005 2006 2005 2006
Rebanho Bovino – milhões de cabeça 165 166 332 337 141 143 97 99 28 29 86 86
Abate – milhões de cabeça 43 40 22 23 54 57 33 35 9 9 28 28
Produção de carne – mil ton Eq. Carcaça 7,8 7,5 2,2 2,3 7,1 7,6 11,3 11,9 2,1 2,1 7,8 7,8
Taxa de abate % 26 24 7 7 38 40 34 35 31 30 33 33
Produção de bezerros – milhares cabeça 44,4 44,6 48,5 49,5 57 60 37,8 38,3 10 10 30 30
Exportações – milhões ton Eq. Carcaça 1,9 2,0 0,6 0,7 0,9 1,0 0,3 0,4 1,4 1,4 0,3 0,2

Fonte: Anualpec, 2006.

Conforme dados do Instituto FNP, de 2004 a 2006 (incluindo as previsões), o consumo de carne bovina (kg/habitante/ano) vem aumentando nos países asiáticos (China e Japão), Estados Unidos e México; permanecem estáveis na Austrália e Europa e apresentam queda no Brasil, Canadá, Rússia e Ucrânia (Tabela 2). Apesar de queda per capita, deve ser levado em consideração o aumento populacional e conseqüentemente o aumento da demanda total por carne bovina no mercado mundial.

Tabela 2 – Consumo per capita mundial de carne – kg por pessoa anual.

  Carne bovina Carne total
  2004 2005 2006 2006*
Canadá 32,4 32,1 31,1 90,1
México 22,6 22,8 23,3 66,8
Estados Unidos 43,2 42,8 43,8 119,8
Brasil 33,6 32,6 29,6 77,3
União Européia 18,2 17,8 17,9 77,7
Rússia 16,0 15,3 15,2 47,3
Ucrânia 10,7 10,0 9,4 29,7
China 5,2 5,4 5,7 52,9
Japão 9,3 9,4 9,7 44,3
Austrália 37,5 37,3 37,5 94,7

* Inclui aves, suínos e bovinos. Ano de 2006 são previsões.
Fonte: Anualpec, 2006.

Os dados de importações mundiais mostram uma tendência de estabilidade com certas quedas em alguns países, mas aumento em outros. Os Estados Unidos são os maiores importadores com larga vantagem em relação ao segundo colocado, o Japão.

Tabela 3 – Importações mundiais de carne bovina – mil toneladas de equivalente carcaça.

  2003 2004 2005 2006
Estados Unidos 1.363 1.669 1.632 1.583
Japão 851 647 700 737
Rússia 720 730 680 710
União Européia 463 584 625 600
México 370 287 320 360
Coréia do Sul 444 218 243 252
Filipinas 129 164 160 165
Egito 93 114 120 140
Canadá 274 111 133 125
Taiwan 98 80 92 98
Total de importação incluindo outros países 5.038 4.832 5.005 5.046

Fonte: Anualpec, 2006.

O Brasil a cada ano que passa vem se consolidando como fornecedor de produtos alimentícios para o mundo, com produtos do complexo da soja, café, suco de laranja, celulose e carnes. É o maior exportador de carne de aves (40% do total) e bovinos (26% do total), e o 4º maior de carne suína (14% do total). O aumento das exportações de carne bovina brasileira vem aumentando ao longo das décadas, e em 2004 tornou-se o maior exportador mundial passando a frente da Austrália. Vários fatores contriubuíram por este aumento das exportações brasileiras:

  • Aspectos sanitários: o mal da vaca louca (encefalopatia espongiforme bovina - EEB) e a febre aftosa em 2001 que abriram o mercado mundial para o Brasil;
  • Aspectos cambiais: o câmbio favorável para a exportação, isto é, a desvalorização do real frente ao dólar;
  • Melhora na qualidade e precocidade do rebanho brasileiro em relação às décadas anteriores;
    Maior demanda nos mercados: Rússia, Oriente Médio, Europa Oriental;
  • Baixo custo de produção em relação aos nossos maiores concorrentes: Austrália, Nova Zelândia, Canadá e Argentina.

As exportações do complexo carne (bovina, suína e aves), no primeiro semestre de 2006,  apresentam certa estabilidade em relação ao ano anterior, embora o comportamento seja diferenciado por segmento. As exportações de carne bovina aumentaram 16,3%, devido principalmente a uma elevação de 13,2% nos preços externos. Apesar dos efeitos negativos ocasionado por problemas sanitários relacionados à febre aftosa, estima-se ao longo do ano que as exportações de carne bovina alcancem 2,4 milhões de toneladas, o que significa um incremento de 15% sobre 2005. As exportações de carne de frango caíram 4,1% devido à gripe aviária, o que vem afetando o desempenho das exportações desse setor. As exportações de carne suína caíram 27% devido ao embargo russo, principal mercado consumidor.

Figura 1 – Evolução das exportações brasileiras de carne bovina.

Fonte: Abiec, 2006.

O mair importador de carne bovina brasileira, em quantidade e valores em dólares, (US$) é a Rússia, sendo o Reino Unido o segundo em US$, mas o terceiro em toneladas. Devido aos embargos russos e chilenos decorrentes dos surtos da febre aftosa no Brasil, em 2005, ocorreu uma queda da sua quantidade importada, se considerarmos a média por semestre, em compensação, os outros países aumentaram suas importações. Outro aspecto que chama a atenção é a variação do preço médio pago pela carne brasileira, que está relacionada ao tipo de carne (industrializada, resfriada ou congelada) e ao mercado comprador. Comparando o ano de 2005 com 2006, o preço médio da tonelada de carne elevou, mesmo com o cenário desfavorável, o surto de febre aftosa e desvalorização do dólar.

Tabela 4 – Volume de exportação de carne bovina brasileira para diferentes países.

  2005 – jan – dez 2006 – jan – jun
País Milhões US$ Toneldas US$/ ton Mil US$ Toneldas US$/ ton
Rússia 567 303.686 1.870,00 217 104.668 2.080,00
Reino Unido 312 118.535 2.630,00 173 61.644 2.800,00
Egito 262 152.539 1.720,00 179 97.926 1.830,00
Holanda 215 50.616 4.240,00 130 27.885 4.650,00
Estados Unidos 206 51.844 3.980,00 145 35.180 4.130,00
Itália 184 55.188 3.340,00 128 29.008 4.420,00
Chile 141 67.462 2.090,00 0,079 4 1.880,00

Fonte: Abiec, Secex / Decex, 2005 e 2006.

Os Estados Unidos e Japão são os maiores importadores mundiais de carne bovina, entretanto, o Brasil apesar de ser o maior exportador mundial não possui volumes expressivos de vendas para esse mercado, que necessita de carne com qualidade diferente daquela que é produzida em larga escala em nosso país. Os maiores volumes de vendas para o mercado americano é de carne industrializada.

As exportações brasileiras de carne industrializada possuem um aumento percentual e em quantidade menores do que a carne “in natura”.  O mesmo acontece com o preço desses produtos, onde o aumento do valor pago pela carne “in natura” foi maior do que na carne industrializada (Tabela 5).

Tabela 5 – Exportações brasileira de de carne bovina.

  2001 2002 2003 2004 2005 Variação Acumulada
Industrializada            
Mil Tonelada de Equivalente Carcaça 310 369 402 428 447 + 44%
Milhões US$ FOB 252 299 338 447 524 + 108%
“In natura “            
Mil Tonelada de Equivalente Carcaça 479 559 806 1.202 1.410 + 194%
Milhões US$ FOB 739 776 1.154 1.963 2.419 + 227%

Fonte: Anualpec, 2006.

No ano de 2005, o Brasil aumentou expressivamento o volume de exportação de bovinos vivos, 42.259 toneladas, principalmente para o Líbano, responsável pela compra de 41.323 toneladas para realizarem o abate desses animais segundo critérios religiosos.

O cenário mundial do mercado da carne bovina está preocupado com o crescimento absurdo das exportações brasileiras. Produtores europeus contando com o apoio da imprensa e organizações não governamentias (ONGs) estão fazendo propagandas negativas dos produtos originados do agronegócio brasileiro, sob taxação de serem oriundos de degradação ambiental e florestal, prejudicando sua imagem ,principalmente, relacionado ao menor valor agregado quando comparado com a Argentina, por exemplo.

O mercado mundial está a procura de produtos relacionados com manejo ambiental correto, bem-estar animal, certificação de origem, responsabilidade social, sendo essas portanto, as novas barreiras comerciais. Normas de boas práticas de manejo e de produção, gestão ambiental, normativas como a ISO 22.000, que fala exclusivamente de segurança alimentar, serão a nova tônica de produção de alimentos no mundo.

A implantação de medidas de controle, combate e/ou erradicação de doenças como EEB, febre aftosa, brucelose, tuberculose terão de ser efetivas e imediatas para que não possa virar um problema político e econômico.

O mercado mundial tem observado o crescimento da participação da carne de frango na alimentação da população, inclusive brasileira. Alguns fatores como os listados abaixo contribuem para essa tendência:

  • Preço do kg de frango inteiro ser mais barato que dos cortes bovinos e o consumo reprimido da população por carne;
  • A oscilação de preços da carne bovina é maior que a de aves, onde a população tende a cortar de seu cardápio aquela carne que subiu dando preferência à mais barata (frango) e incoorporando-a à sua alimentação;
  • A rapidez de preparo das refeições devido à mudança de hábito alimentar (fast food, comidas semi-prontas, congeladas, etc.) são favoráveis às carnes de aves devido a sua praticidade e variedades de produtos;
  • A troca da carne vermelha pela carne branca por “acreditarem” ser mais saudável;
  • A padronização de produtos e escala de fornecimento constante das carnes de aves levam vantagem em relação à carne bovina.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

ANUALPEC. Anuário da Pecuária Brasileira. São Paulo: Instituto FNP, 2006.

CNPC. Balanço da pecuária bovídea de corte 1994 a 2005, 2005. Disponível em http://www.abiec.com.br
Acesso em: 07.set.2005.

IEL, SEBRAE, CNA. Estudo sobre a eficiência econômica e competitividade da cadeia agroindustrial da pecuária de corte no Brasil. 2000.
Disponível em http://www.cna.org.br/PublicacoesCNA/EstudosdasCadeiasProdutivas/Pecuaria de corte
Acesso em: 17.ago.2003.

ESPOLADOR, H.F.S., FONTANA, F.C. Exportações do agronegócio e a valorização cambial.
Disponível em http://www.cepea.esalq.usp.br
Acesso em: 20.mar.2006.

 
     
 
   
  Copyright 2009 © Portal Agronomia
Desenvolvido por Digital Pixel