CONSUMO DE PASTAGENS PELOS BOVINOS

Fabiano Alvim Barbosa
Médico Veterinário, M. Sc.
Doutorando Produção Animal

1 - CONSUMO DE FORRAGEM PELOS BOVINOS

O consumo de matéria seca é um dos principais determinantes do processo produtivo, sendo que a baixa produção de bovinos nos trópicos deve-se, em grande parte, ao consumo deficiente de matéria seca. No entanto, maiores progressos no entendimento dos fatores básicos que afetam o consumo têm sido impedidos por nossa inabilidade em medi-lo acuradamente, o que possibilitaria separar melhor  as influências de animal e dieta e traçar estratégias com vistas à otimização do processo produtivo.

A quantidade de matéria seca consumida é uma medida crítica para fazer inferências nutricionais e se alcançar um balanço positivo entre a oferta e demanda por nutrientes do animal em pastejo. Conseqüentemente, medidas diretas ou estimadas de consumo de matéria seca em pastagens têm despertado interesse da pesquisa em nutrição animal, desde o início do século XX. Muitos têm sido os esforços, no mundo inteiro, na procura de técnicas precisas para obtenção de estimativas dos parâmetros do valor nutritivo em condições de pastejo.

O animal em pastejo está sob efeito de muitos fatores que podem, também, influir no consumo de forragem; entre estes, sobressai à oportunidade de seleção da dieta, pois o pastejo seletivo permite compensar a baixa qualidade da forragem, possibilitando a ingestão das partes mais nutritivas da planta. A prioridade dos animais em pastejo é consumir as folhas mais novas, com maior valor nutritivo, seguido das folhas mais velhas, das folhas de extratos inferiores e, só então, o caule.

No caso específico de forragens, especula-se que são muitos os fatores que afetam direta e indiretamente o consumo desse alimento. Várias características ligadas à ingestão de forragens, ou melhor, características químico-bromatológicas, físico-anatômicas e de cinética digestiva podem favorecer ou não o consumo pelos animais. Estas podem ser:

  • Químico-bromatológicas: deficiências de minerais como, por exemplo, Ca, P, Mg, Na, Co; Se; teores de proteína inferiores a 60-80 g/kg de MS; teor de fibra; teor de lignina; umidade;
  • Físico-anatômicas: tamanho de partícula; resistência à mastigação; características da epiderme vegetal, relação de tecidos na célula vegetal, arranjo estrutural desses tecidos.
  • Cinética digestiva: digestibilidade da matéria seca; taxa de digestão; taxa de passagem pelo trato gastrintestinal.

O consumo de nutrientes digestíveis é o produto da quantidade de forragem consumida pela digestibilidade dos nutrientes nessa forragem. Entretanto, 60 a 90% das variações na qualidade potencial entre forrageiras são atribuídos às diferenças em consumo, enquanto 10 a 40% às diferenças em digestibilidades dos nutrientes.

O consumo de matéria seca normalmente é expresso em percentagem do peso vivo. O consumo de 2,5% ou mais do peso vivo, por animais jovens, representa alta produção animal, especialmente no ganho de peso vivo. O consumo de forragem normalmente aumenta à medida que a digestibilidade da MS aumenta, até em torno de 68%.

O consumo do bovino a pasto e seu desempenho  é dependente da forragem disponível e de sua qualidade. Pastagens com menos de 2.000 kg de matéria seca (MS) por hectare levam a menor consumo de pastagem pelos animais e aumento do tempo de pastejo. Este consumo cai quando a  forragem ingerida possui menos de 6 a 8% de proteína bruta na MS.

2 - MENSURAÇÃO DO CONSUMO DE PASTAGENS PELOS BOVINOS

A mensuração do consumo a pasto é complexa e não pode ser realizada diretamente, como em confinamentos. A técnica dos indicadores é uma alternativa para determinação do consumo de matéria seca (MS) a pasto, a qual tem sido amplamente empregada e se baseia na obtenção da massa consumida por meio da relação entre a excreção fecal (EF) e a digestibilidade da dieta.

Existem vários métodos de se estimar consumo de animais a pasto que incluem medidas diretas e indiretas. Uma das maneiras diretas de se avaliar o consumo de animais a pasto é pela diferença de peso da pastagem, conhecida como método agronômico, onde o consumo é determinado pela diferença entre a matéria seca ou orgânica disponível antes e após o pastejo. A redução da forragem observada no piquete, devido ao pastejo, dividida pelo produto do número de animais e dias de pastejo pode dar uma idéia do consumo diário.

Sendo pouco preciso e muito trabalhoso o método direto de estimativa de consumo de pasto, recorre-se aos métodos indiretos que se baseiam nas estimativas de digestibilidade do pasto ingerido e da quantidade de fezes excretadas. O uso de indicadores internos e externos vem sendo feito como alternativa ao método de coleta total de fezes. Indicadores externos, tais como o óxido crômico (Cr2O3), têm sido usados  em experimentos de digestibilidade. O óxido crômico pode ser fornecido ao animal em várias formas, tais como: em pó, impregnado em papel, em cápsula de gelatina, misturado no concentrado e ministrado em diferentes horários, no intuito de reduzir a variabilidade de sua excreção.

A amostragem de dietas de animais em condições de pastejo tem sido alvo de inúmeras investigações, as quais têm buscado ampliar a acurácia na determinação dos componentes físicos e bromatológicos (qualidade) ingeridos pelos animais manejados nestas condições. De acordo com o mesmo autor, a coleta de extrusa esofágica tem sido apontada como melhor indicativo da dieta selecionada pelo animal, contudo alguns problemas têm sido relatados com a sua utilização, como: contaminação por nitrogênio salivar; perda de materiais solúveis como carboidratos, proteína e minerais, que podem comprometer a acurácia das análises; o pouco tempo de pastejo dos animais para se obter as amostras, que pode fazer com que não sejam representativas ou que reflitam as mudanças que ocorrem durante o período de pastejo; além do inconveniente da manutenção de animais fistulados, o que torna oneroso e laborioso o procedimento de amostragem.

A técnica do pastejo simulado é simples e requer pouco equipamento, podendo constituir alternativa à utilização da extrusa esofágica. Todavia, a maior objeção a este método de amostragem é o não conhecimento da discrepância entre a amostra e a forragem realmente consumida. Uma estimativa satisfatória da dieta selecionada por animais em pastejo pode ser feita simulando o pastejo animal. Amostras obtidas pelo corte rente ao solo, topo da pastagem, ou apenas a fração foliar de uma amostra  não são representativas do material ingerido pelos animais.

Pesquisas mostraram que ao compararem o pastejo simulado com as amostras de extrusas esofágicas de bovinos pastejando Brachiaria decumbens, durante o período das águas, não houve diferença estatística para matéria seca verde (MSV), proteína bruta (PB), digestibilidade in vitro da matéria orgânica (DIVMO). Entretanto, houve diferença estatística para fibra detergente neutro (FDN).

3 - Efeito de substituição

Quando a forragem é abundante e a energia é fornecida existe aumento total de alimentos ingeridos, mas a quantidade de forragem ingerida torna-se menor quando comparada à ingestão somente de pastagem sem suplementação de energia. Coeficientes de substituição (depressão no consumo de forragem / ingestão de suplemento) para ingredientes energéticos podem variar de 0,25 a 1,67. Quanto maior o teor de amido ingerido maior será a queda de consumo da pastagem. O uso de suplementos energéticos até 0,5% do peso vivo não altera o nível de ingestão e digestibilidade da matéria seca ingerida, entretanto o tipo de amido afeta este efeito substitutivo, onde suplementação com grão de milho acima de 0,25% do peso vivo (p.v.) resulta em efeitos adversos  sobre a utilização da forragem. Já o trigo somente teve efeito em níveis acima de 0,34% do p.v.

                                 QFISSPL - QFICSPL
Efeito substituição = ------------------------------  x 100
                                             QSF

QFISSPL = quantidade forragem ingerida sem  suplemento.
QFICSPL = quantidade forragem ingerida com  suplemento.
QSF = quantidade suplemento fornecido.

Figura 1.  Fórmula do efeito de substituição. Fonte: Hodgson (1990).

Os dados da Tabela 1 mostram que não houve efeito estatisticamente significativo da suplementação no consumo de forragem e total comparado ao tratamento SM nas diferentes formas de expressão de consumo (% pv e g/kg P0,75), sendo assim, não foi observado, nenhum efeito de substituição ou aditivo do suplemento em relação ao pasto de Brachiaria brizantha, apesar de numericamente superior na SUP 2 comparado ao SM,  2,65 e 2,60% pv, respectivamente. Isto pode estar relacionado à quantidade suplementada, menor que 0,4% do peso vivo, além do tipo de carboidrato fornecido, pectina, que, possivelmente, não reduziu o pH ruminal, suficientemente, para deprimir o de consumo.

O resultado de consumo de matéria seca total  do tratamento SM está de acordo com o NRC (1996) que prevê um consumo de 2,5 a 2,9% do peso vivo (pv) para novilhos com média de 235 kg e dietas entre 45 e 55% NDT, e próximo aos 2,5 % do pv encontrados por Almeida et al. (2003) em  bezerros,  com peso vivo inicial de 138 kg,  em pastagens de Brachiaria brizantha consorciada com Stylosanthes guianensis cv. Minerão, durante a época das águas. Já  Euclides et al. (2000) observaram consumos mais elevados (2,76%) que do presente trabalho, em novilhos, em pastagens exclusivas de B. brizantha, no período das águas.

Tabela 1 – Médias e coeficiente de variação (CV -%) para os consumos de matéria seca de forragem (CMSF) e  de matéria seca total (CMST), médias de consumo de matéria seca de suplemento (CMSS) em função dos diferentes tratamentos em diferentes unidades (kg/dia, % peso vivo (pv), g/kg de peso metabólico (P0,75)).

  SM SUP 1 SUP 2 CV (%)
CMSF (kg/dia) 5,71a 5,76a 5,92a 20,44
CMSS (kg/dia) 0,04 0,36 0,78  
CMST (kg/dia) 5,75a 6,12a 6,70a 19,17
CMSF (% pv) 2,59a 2,43a 2,34a 11,58
CMSS (% pv) 0,01 0,16 0,31  
CMST (% pv) 2,60a 2,59a 2,65a 11,47
CMSF (g/kg P0,75) 99,76a 94,83a 93,07a 11,77
CMSS (g/kg P0,75) 0,59 6,16 12,33  
CMST (g/kg P0,75) 100,35a 100,99a 105,40a 11,12

Médias com letras iguais, na mesma linha,  não diferem entre si  estatisticamente (P>0,05).
Fonte: Barbosa, 2004.

SM – Suplemento mineral; SUP 1 – 69% de PB, 75% NDT;  SUP 2 – 39% de PB, 79% NDT

4 - Referências bibliográficas

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