Produção de Carne a Pasto

Herbert Vilela*
Fabiano Alvim Barbosa**

I. INTRODUÇÃO

O baixo rendimento observado nos trópicos pode ser atribuído em grande parte, a desnutrição resultante da sazonalidade característica da produção de forragem nesta região. Em um programa de produção de carne, é relevante considerar as fases negativas de desenvolvimento do animal. Deve haver condições para que o mesmo se desenvolva normalmente, proporcionando um crescimento durante todo o ano.

Devido ao desequilíbrio entre os ganhos na época das águas e da seca faz-se necessária a suplementação alimentar em certos períodos, para que se possa abater animais com idades inferiores a 30 meses. Essa suplementação pode ser a pasto, podendo-se ainda utilizar pastagem cultivada anual na seca ou inverno ou mesmo a pastagem fenada naturalmente (macega).

A suplementação protéica tem sido utilizada para diminuir as perdas de peso ou aumentar a produção animal durante os períodos críticos. Vários trabalhos de pesquisa (RICHARDSON et al. 1976, THOMAS e ADDY, 1977, HAFLEY et al., 1993, POPPI e MCLENNAN, 1995) estudaram o efeito de diversos tipos de suplementos protéicos sobre a produção animal e geralmente, as melhores respostas foram obtidas onde havia alta disponibilidade de forragem, mesmo que de baixa qualidade.

Durante o período do ano, em que a pastagem apresenta baixa qualidade, a suplementação protéica ou protéico-energética proporciona ganho de peso satisfatório, enquanto que a suplementação exclusivamente energética não apresenta ganho satisfatório (SCALES et al., 1974). Com a suplementação protéica normalmente, tem-se ganho em peso por diversos fatores, entre eles o aumento na ingestão de matéria seca (MCCOLLUM e HORN, 1992). O consumo de matéria seca de gramíneas tropicais é influenciado positivamente pelo nível de proteína da gramínea, até o nível de 7% (MILFORD e MINSON, 1965). O aumento de ingestão de matéria seca e consequentemente no ganho em peso vivo, quando se suplementa com nitrogênio, pode estar relacionado com o aumento de nitrogênio amoniacal no rúmen o que proporciona o desenvolvimento microbiano (HENNESEY e WILLIANSOM, 1990).

A decisão de engordar bovinos em condições de pasto, utilizando-se a suplementação alimentar com concentrado ou terminá-los em confinamento depende de uma série de variáveis, como condições peculiares da região e propriedade como também do comércio. O emprego de qualquer destes sistemas pode viabilizar o abate de animais mais jovens, com carcaças de melhor qualidade, além de aumentar a capacidade de suporte da propriedade (EUCLIDES et al., 1998).

Os objetivos deste trabalho foram estudar a eficiência de sistemas de alimentação a pasto, durante os períodos críticos do ano como alternativa de redução da idade de abate.

II. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

1. Suplementação a pasto e consumo de pasto:

O suplemento deve ser considerado como um complemento da dieta, o qual supre os nutrientes deficientes na forragem disponível na pastagem. Na maioria das situações, a forragem não contém todos os nutrientes essenciais, na proporção adequada, de forma a atender as exigências dos animais em pastejo (REIS et al., 1997).

Em muitos sistemas de produção de ruminantes, que tem como base o uso de pastagens, nutrientes suplementares são necessários para se obter níveis aceitáveis de desempenho animal. Um desafio constante é predizer com eficiência o impacto que a suplementação terá no desempenho animal. Uma estratégia de suplementação adequada seria aquela destinada a maximizar o consumo e a digestibilidade da forragem disponível. Contudo deve-se ter em mente que o suplemento não deve fornecer nutrientes além das exigências dos animais (PARSONS e ALLISON, 1991, PATERSON et al., 1994). Este objetivo pode ser atingido através do fornecimento de todos, ou de alguns nutrientes específicos, os quais permitirão ao animal consumir maior quantidade de matéria seca disponível e digerir ou metabolizar a forragem ingerida de maneira mais eficiente (SIEBERT e HUNTER, 1982, HODGSON, 1990).

A suplementação a pasto tem por objetivos os seguintes aspectos:

  • corrigir a deficiência dos nutrientes da forragem;
  • aumentar a capacidade de suporte das pastagens;
  • fornecer aditivos ou promotores de crescimento;
  • fornecer medicamentos;
  • auxiliar no manejo de pastagens.

Segundo HODGSON (1990) há poucas circunstâncias nas quais o concentrado convencional ou a forragem conservada agem realmente como suplemento, ou seja, são consumidos sem acarretar diminuição no consumo de forragem.

Neste sentido, para uma eficiente utilização de suplementos para ruminantes em pastejo, há necessidade de se conhecer as exigências dos animais. A diminuição no consumo de forragem por animais em pastejo é semelhante ao ocorrido com aqueles confinados. Em resposta a suplementação energética há uma progressiva diminuição no tempo de pastejo e tamanho do bocado (REIS et al., 1997, FORBES et al., 1996) encontraram um coeficiente de substituição de 0,83 da pastagem de gramínea pelo suplemento usado.

Trabalho de PAULINO et al. (1995) mostraram que a suplementação com farinha de carne e outra com farinha de peixe juntamente com mistura mineral promovem melhor desempenho dos animais, em pastagem de capim colonião. Mas não há referência aos efeitos da suplementação no consumo e na digestibilidade da forragem disponível nas pastagens, o que não permite o cálculo do coeficiente de substituição.

2. Suplementação na época das águas:

Quando a forragem é o único alimento disponível para os animais em pastejo, esta deve fornecer energia, proteína, vitaminas e minerais necessários para o requerimento de mantença e de produção. Considerando que os teores destes compostos estão em níveis adequados, a produção animal será função do consumo de energia digestível (ED), uma vez que é alta a correlação entre consumo de forragem e ganho de peso. Assim a quantidade de alimento que um bovino consome é o fator mais importante a controlar a produção de animais mantidos em pastagens (MINSON, 1990).

Pequenas quantidades de energia e N prontamente solúveis podem aumentar a digestão da forragem de baixa qualidade e, em alguns casos, o seu consumo (SIEBERT e HUNTER, 1982, OWENS et al., 1991). A produção de N microbiano no rúmen pode ser limitada também pelo suprimento de substratos facilmente fermentecíveis no caso de forragens tropicais; assim pequenas quantidades de grãos, no caso de animais em crescimento, para elevar a quantidade de N microbiano que chega ao intestino delgado pode melhorar a performance (JONES et al., 1989). De acordo com SIBERT e HUNTER (1982), a resposta na produção de animais em pastejo ao uso de suplemento é, provavelmente influenciado pelas características do pasto e do suplemento, bem como pela maneira de seu fornecimento e pelo potencial de produção do animal.

O consumo de energia e proteína do bovino deve ser balanceado para otimizar a fermentação e maximizar a produção de proteína microbial. Consumo excessivo de proteína sem quantidade adequada de energia, resulta em perda de nitrogênio na excreta. Cerca de 75% do carboidrato digerido pelos ruminantes é fermentado pelos micróbios no rúmen, com estes micróbios suprindo cerca de 50% da proteína (aminoácidos) necessária pelo animal ruminante (NRC Beef, 1984). Suplementos energéticos para o rúmen e suplementos com alto teor de proteína escape seriam igualmente benéficos. O tipo de energia suplementada é importante, uma vez que a energia deve estar disponível para os micróbios ao mesmo tempo que o NH3 (NOLLER et al., 1997).

VANZANT et al. (1990) estudaram o efeito da suplementação com grãos de sorgo sobre o consumo e utilização de forragem no início da estação de crescimento. Forneceram este suplemento a novilhos na base de 0, 0,17, 0,32, e 0,66% do peso vivo. A forragem fornecida tinha 37,2% de matéria seca (MS), 6,1% de proteína bruta (PB) e 62,7% de fibra detergente neutro (FDN). A suplementação com sorgo não afetou a concentração de proteína bruta nas amostras de alimento coletadas por novilhos com cânula esofageal, embora as amostras tivessem maior teor protéico que a forragem fornecida. A suplementação também não afetou o consumo de MS da forragem, mas aumentou linearmente o consumo de MS conforme os níveis de suplementação.

3. Suplementação na época da seca:

Sob condições tropicais, o consumo de nutrientes é freqüentemente afetado adversamente por concentrações insuficientes de N, P, S, Co e até mesmo outros minerais traços, dependendo da área sob pastejo. O Brasil central tende a ter deficiência de todos os minerais mencionados. A suplementação dos nutrientes deficientes, aumentando a concentração para atender as exigências, freqüentemente resulta em dramática resposta no consumo de alimentos e produção animal. Sintomas de deficiência são freqüentemente relatados, não para um nutriente, mas uma combinação de deficiências, de modo que nutrientes não devem ser considerados isoladamente. Deficiências múltiplas freqüentemente ocorrem em ambientes tropicais e subtropicais, com resposta em produção se o primeiro nutriente limitante é corrigido, seguido por resposta adicional a medida que outros nutrientes deficientes são corrigidos e a dieta é conduzida para o balanço (NOLLER et al., 1997).

No Brasil central ocorre uma queda acentuada na disponibilidade de forragem no período de seca invernal, que se caracteriza por uma produção extremamente baixa de aproximadamente 10% do total anual (TOSI, 1973, PEDREIRA, 1985). Além da menor oferta de alimento no pasto, o animal dispõe de uma forragem pobre em proteína, com maior teor de fibra bruta, altamente lignificada. Como conseqüência desse fato, os animais consomem menos matéria seca do que em épocas mais favoráveis e o que ingerem é de qualidade insatisfatória, resultando invariavelmente em perda de peso e, às vezes, até a morte, devido ao déficit energético, protéico, mineral e vitamínico (TOSI, 1997).

Suplementação protéica com NNP ou proteína verdadeira, aumenta a eficiência de utilização de forragens de baixo valor nutritivo. Com forragens pobres em PB e resíduos de cultura (< 7,0% de PB), a principal resposta à suplementação protéica tem sido devido ao atendimento da exigência microbiana ruminal por N e fornecimento de aminoácidos específicos e ou energia contida nesse suplemento (PATERSON et al., 1994, BURTON e MERTENS, 1995).

Segundo PAULINO et al. (1995), os suplementos múltiplos tem o objetivo de estimular o consumo de forragem seca e melhorar a sua digestibilidade e não a de suplementação direta (efeito substitutivo). É importante considerar que o conteúdo de N fermetável abaixo do ótimo na dieta pode decrescer a digestibilidade da fibra e também resultar em baixa relação entre aminoácidos/energia nos nutrientes absorvidos (PRESTON e LENG, 1987). Ademais, aumentando a disponibilidade de N fermentável, eleva-se a digestibilidade e a relação nos produtos absorvidos, devido ao aumento na eficiência da fermentação no rúmen e ambos os efeitos elevam o consumo de forragem (REIS et al., 1997).

ZANETTI et al. (1997) realizou um experimento com animais NelorexCaracu, com peso inicial de 207,3kg, em pastagens de Brachiaria decumbens com suplementação de 10,5kg de cana de açúcar/animal/dia e quatro tratamentos diferentes: sal mineral, sal mineral com uréia, proteinado, proteinado com uréia. Os animais que receberam somente sal mineral perderam 0,096 gramas/dia, os com sal mineral e uréia ganharam 0,207kg/dia, os com proteinado 0,086kg/dia e os com proteinado com uréia 0,357kg. Os consumos médios diário foram 0,056, 0,135, 0,320, 0,650kg do sal mineral, sal mineral com uréia, proteinado, proteinado com uréia respectivamente.

VILELA et al. (1983) trabalharam com novilhos azebuados com 350kg de peso vivo inicial, durante o período de seca em pastagens de capim colonião, e mostraram que os animais que receberam pasto e mistura mineral comum perderam 0,083kg por dia, os que receberam pasto e mistura mineral (50%) com uréia (50%) ganharam 0,350kg por dia e os que receberam pasto mineral (40%) com uréia (40%) e fubá milho (20%) ganharam 0,593kg por dia. O consumo foi de 55, 70 e 100 gramas por cabeça por dia, respectivamente.

BERGAMASCHINE et al. (1998) trabalharam com novilhos da raça Guzerá, com aproximadamente 17 meses e 246kg de peso vivo, em pastagens de Brachiaria decumbens, Stapf., recebendo suplemento mineral múltiplo, de julho a setembro. Estes animais foram submetidos aos tratamentos: T1 - 1,2; T2 - 0,8 e T3 - 0,5UA/ha. O ganho de peso médio diário foi influenciado (p < 0,05) pela taxa de lotação. A lotação de 0,5UA, proporcionou maior ganho, 0,655kg e a lotação de 1,2UA, o menor, 0,503kg, enquanto que a lotação de 0,8UA, foi intermediária, 0,561kg/animal/dia. O ganho de peso dos animais variou com a disponibilidade média de matéria seca, que foi de 789, 1085 e 1856kg/100kg de peso vivo, para as cargas, 1,2, 0,8 e 0,5UA/ha, respectivamente. O consumo dos suplementos múltiplos foram de 0,775, 0,707, 0,777kg/cabeça/dia para as cargas de 1,2, 0,8 e 0,5UA/ha, respectivamente.

PAZIANI et al. (1998) trabalharam no período de julho a outubro, com machos inteiros Nelore, com peso vivo médio inicial de 277,54kg, em pastagens de Brachiaria brizantha (Hochst. Ex. A. Rich) Stapf cv Marandu. O suplemento utilizado foi do tipo protéico-mineral, com 10,6MJ de energia metabolizável, 390g de PB e 169g de proteína degradável (por kg de produto), formulado à base de farinha de carne, glutenose 60, farelo de soja, levedura e sal mineralizado. O consumo médio foi de 1kg/animal/dia. Os animais do grupo controle tiveram um ganho médio diário de 0,226kg, enquanto os animais suplementados 0,376kg (qualidade superior) e 0,403kg (qualidade inferior) (p < 0,05).

BARBOSA et al. (1998) trabalharam no período de agosto a outubro, com machos inteiros Nelore, com peso vivo médio inicial de 400kg de peso vivo, em pastagens de Brachiaria brizantha (Hochst. Ex. A. Rich) Stapf cv Marandu, utilizando dois tipos de misturas múltiplas comerciais, conseguiram um ganho de peso diário de 121 e 59g e um consumo de 160 e 320g/cabeça/dia para a mistura múltipla 1 e mistura múltipla 2, respectivamente. Sendo que a mistura múltipla 1 proporcionou um ganho de R$ 3,44/animal e a mistura múltipla 2 um prejuízo de R$ 7,33/animal, no período considerado.

4. Adubação nitrogenada de pastagens:

O crescimento e a persistência de gramíneas nos trópicos são freqüentemente limitados por deficiência de nitrogênio no solo. Há duas formas práticas de aumentar o suprimento de nitrogênio no solo visando melhorar a produtividade das gramíneas: uma seria a aplicação de fertilizantes nitrogenados e a outra, a incorporação do N fixado simbioticamente pelas leguminosas (EUCLIDES et al., 1998).

Vários trabalhos tem demonstrado a superioridade em produção animal de pastagens adubadas com nitrogênio ou consorciadas em comparação à pastagens sem adubação ou solteiras.

VILELA et al. (1979) trabalhando com novilhos azebuados (Nelore) encontraram rendimentos de peso vivo por hectare/ano de 405 e 430kg (p < 0,05), e taxa de lotação de 1,92 e 2,02UA/ha em pastagens de Brachiaria decumbens Stapf. exclusiva e B. decumbens Stapf. consorciada com Leucaena leucocephala cv. Peru, Macroptilium artropurpureum cv. Siratro e Centrosema pubescens respectivamente, em Minas Gerais (região de cerrado). Também em Minas Gerais (região cerrado) os mesmos autores obtiveram com novilhos mestiços (HZ) um rendimento em peso vivo de 501 e 540kg (p < 0,05), para pastagens de Panicum maximum cv Guiné exclusiva e com soja perene (Glycine javanica cv. Tinaroo) e siratro (Macroptilium artropurpureum cv. Siratro) respectivamente e taxas de lotações de 2,51UA/ha em ambas pastagens.

EUCLIDES et al. (1998) trabalhando durante três anos, no Mato Grosso do Sul (região de cerradão), com novilhos e encontraram ganho médio diário de 390 e 340g (p < 0,05) e 404 e 352kg/ha/ano, em pastagens de Brachiaria decumbens e Brachiaria brizantha consorciadas com Calopogonium mucunoides, e pastagens sem consorciação respectivamente. Como não houve alteração na taxa de lotação de ambas pastagens (3,1 novilhos/ha) consorciadas ou não os autores concluíram que este aumento de produção animal ocorreu devido a maior contribuição do calopogônio no aumento da proteína bruta (PB) da dieta do animal. Sendo que no período seco por efeito direto da leguminosa na dieta e nas águas, um efeito indireto da leguminosa, aumentando o suprimento de N no sistema, e consequentemente, o conteúdo de PB da gramínea.

VILELA et al. (1980) trabalhando, durante três anos, com novilhos mestiços (HZ) em pastagens de Panicum maximum cv Guiné com adubação de 100kg de N/ha/ano e outra de Panicum maximum cv Guiné com soja perene (Glycine javanica cv. Tinaroo) e siratro (Macroptilium artropurpureum cv. Siratro) encontraram rendimentos de peso vivo/ano de 510 e 521kg (primeiro ano), 760 e 675kg (segundo ano), 754 e 540kg (terceiro ano) respectivamente. A taxa de lotação nos dois primeiros anos foi a mesma para ambas pastagens, 1,5UA (primeiro ano) e 2,5UA (segundo ano). No terceiro ano foram de 2,55UA e 1,85UA para pastagens com nitrogênio e com leguminosas respectivamente. Também em Minas Gerais (região cerrado) estes mesmos autores, durante três anos, em pastagens de Brachiaria decumbens Stapf com adubação de 90kg de N/ha/ano e outra de Brachiaria decumbens Stapf consorciada com Leucaena leucocephala cv. Peru, Macroptilium artropurpureum cv. Siratro e Centrosema pubescens trabalhando com novilhos mestiços (HZ) encontraram os seguintes rendimentos em peso vivo por hectare: 665 e 600kg (primeiro ano), 520 e 550kg (segundo ano), 545 e 495kg (terceiro ano) (p < 0,05) para pastagens com nitrogênio mineral e com leguminosas respectivamente. A capacidade de suporte da pastagem, foi respectivamente na mesma ordem: 2,5 e 2,45UA, 2,18 e 2,29UA, 2,3 e 1,95UA.

5. Desempenho de novilhos zebu em pastagem durante o primeiro período de seca após a desmama:

Novilhos zebu (Nelore) apresentam em média, peso vivo em torno de 175kg, à desmama. Durante esta época do ano tem observado um ganho médio diário de 0,160kg por cabeça e um ganho por hectare, por período de 6 meses, de 30kg de peso vivo, quando suplementados somente com mistura mineral completa. Estes animais quando suplementados à pasto com uma mistura de concentrados (75% de milho desintegrado com palha e sabugo e 25% de farelo de soja) na base de 0,8% de peso vivo e mistura mineral completa, apresentaram um desempenho nesta pastagem de 0,450kg por cabeça/dia, o que representaria um ganho por hectare, por período de 6 meses, de 81kg de peso vivo (ZIMER e EUCLIDES, 1997).

Outros trabalhos (ZANETTI et al., 1997, VILELA et al., 1981) mostram que mistura mineral múltipla contendo uréia pode conferir a êste padrão de animal, um ganho médio que varia de 0,350kg a 0,460kg por dia, para um consumo que varia de 0,400 a 0,600kg por animal/dia. A variação no desempenho dos animais foi atribuída à diferença entre as pastagens de braquiária nesta época do ano.

6. Desempenho de novilhos zebu em pastagem durante o primeiro período de verão após a desmama:

Neste contexto, deve-se fazer uma diferenciação entre aqueles animais suplementados e os não suplementados durante o período anterior. Muitos trabalhos (BOIN e TEDESCHI, 1996, EUCLIDES et al., 1997) têm mostrado diferenças no desempenho dos animais não suplementados e os suplementados no período anterior, devido ao ganho compensatório. Os autores concluem que os casos de compensação total são raros na literatura e nas condições práticas de produção. Estes autores mostram que o peso final dos animais suplementados no período anterior é sempre maior, 350kg de peso vivo, do que aqueles não suplementados, 305kg de peso vivo. Estes pesos correspondem a um ganho diário de 0,550 e 0,700kg/cabeça, respectivamente.

7. Desempenho de novilhos zebu em pastagem durante o segundo período de seca após a desmama:

Animais não suplementados durante esta época do ano, geralmente perdem peso. Esta perda está associada à aspectos quantitativos e qualitativos da pastagem e ao peso vivo dos animais. Animais com peso vivo acima de 350kg perdem mais peso que aqueles com menos de 300kg (EUCLIDES et al., 1997, ZANETTI et al., 1997, POPPI e MCLENNAN, 1995, BISSCHOFF et al., 1967). Outros trabalhos mostram o efeito quantitativo das pastagens sobre o desempenho do animal (BISSCHOFF et al., 1967, EUCLIDES et al., 1997, VILELA, 1982). As perdas em peso vivo observadas nestes trabalhos alcançam valores de até 0,118kg por animal por dia.

Trabalhos de pesquisa objetivando a suplementação de novilhos com 350kg ou mais, em pastejo durante esta época do ano, são numerosos na literatura brasileira. Ora os pesquisadores investigam o tipo de suplemento, ora os níveis destes suplementos ou a qualidade das pastagens.

TEIXEIRA et al. (1998) verificaram o efeito da suplementação com sal mineral mais uréia (1:1) e sal mineral mais Amiréia 150S (1:2) em animais em pastejo. Observaram um melhor desempenho dos animais que receberam a uréia na forma tratada (Amiréia 150S) em relação àqueles que receberam a uréia na forma natural, 0,412 e 0,276kg/cabeça/dia, respectivamente.

ALVIM BARBOSA et al. (1998) estudaram o efeito de duas misturas múltiplas sobre o desempenho de novilhos zebu em pastejo. Uma das misturas continha 50g de Ca, 18g de P, 111g de Na, 120g de uréia e 27% de NDT e a outra 30g de Ca, 17g de P, 70g de Na, 150g de uréia e 35% NDT. O consumo foi de 0,160 e 0,320kg/cabeça/dia, respectivamente. Os autores mostraram melhor retorno financeiro em relação ao uso da primeira mistura (R$ 8,14) do que a segunda (R$ 3,96), no período considerado.

PAZIANI et al. (1998) suplementaram novilhos cruzados das raças Nelore, Marchigiana e Simental, em pastagem de capim Brachiaria brizantha cv. Marandu, durante o período de seca. Comparam o farelo de soja com o grão integral de soja em uma mistura de concentrados que participavam em 25% em sua composição com o grão de milho inteiro e moído. Este concentrado foi fornecido na base de 1,6% do peso vivo. O desempenho dos animais que receberam farelo de soja e milho moído foi melhor (1,593kg/animal/dia) do que aqueles que receberam soja integral e grão de milho (0,970kg/animal/dia). Estes mesmos autores concluíram que taurinos alimentados, à vontade, com rações ricas em concentrados são melhores ganhadores em peso vivo do que os zebuínos.

EUCLIDES et al. (1998) verificaram o efeito de um nível de suplementação durante o período da seca de novilhos nelore com 350kg de peso vivo em pastagem de Brachiaria decumbens com uma taxa de lotação de 1,01UA/ha. Verificaram que a suplementação com milho moído (75%) e farelo de soja (25%) fornecida na proporção de 0,8% do peso vivo, proporcionou um ganho médio diário de 0,613kg por cabeça por dia. Por outro lado, os animais com mistura mineral simples e pasto perderam 0,118kg por cabeça por dia.

PAULINO et al. (1996) estudaram a suplementação de novilhos Nelore, durante a época da seca, com mistura minerais mais fubá de milho, minerais mais milho desintegrado com palha e sabugo e minerais mais farelo de trigo. O desempenho dos animais foi de 0,190, 0,230 e 0,300kg por cabeça por dia.

No que se refere a qualidade das pastagens sobre o desempenho de animais durante o período da seca, observa-se que quando se dedica atenção especial às pastagens nesta época do ano não ocorre perda de peso dos animais. Este melhoramento pode constituir desde um pastejo deferido (LOURENÇO et al., 1998) até uma pastagem consorciada ou devidamente manejada com adubações de manutenção. Quando consorciada, verifica-se melhor desempenho dos animais (0,240kg por anima/dia) em relação a pastagem não consorciada (0,183kg por animal/dia) (EUCLIDES, 1998). Outros trabalhos (PEREIRA et al., 1992, LOURENÇO et al., 1996) também evidenciaram este efeito.

VILELA et al. (1992) estudaram três níveis de adubação de pastagem de Panicum maximum, durante sete anos. Os autores verificaram uma melhoria na qualidade das pastagens com níveis de adubação de manutenção. Os níveis estudados foram zero, 20 e 40kg de P2 O5 e K2O por hectare. Os ganhos anuais em peso vivo variaram de 70 a 500kg por hectare, por ano nos tratamentos sem e com o nível maior de adubação de manutenção. Neste trabalho pode ser observado também que os animais durante o período de seca não perderam peso quando as pastagens eram adubadas com P e K para suas manutenções.

8. Desempenho de novilhos de zebu em pastagens durante o segundo período de verão após a desmama:

O desempenho de novilhos em regime de pasto, durante o verão, é pouco relatado na literatura brasileira. Contudo, EUCLIDES et al. (1998) mostram efeito do ganho compensatório neste período, quando os animais não receberam nenhuma suplementação nos períodos anteriores (testemunha). O ganho em peso vivo dos animais, com peso vivo médio de 420kg, foi de 0,468kg/cabeça/dia em pastagem de Brachiaria decumbens, com uma lotação de 1,1UA/ha. Por outro lado, quando um lote de animais foi suplementado na primeira e segunda seca e outro lote suplementado na segunda seca, o desempenho destes animais foram menores (p < 0,05) ou seja 0,412 e 0,370kg por cabeça/dia, respectivamente. A suplementação no primeiro período seco reduziu a idade de abate em 5 meses, a suplementação no segundo período seco reduziu a idade em 7 meses, enquanto a suplementação nos dois períodos secos houve redução de 9 meses. O peso de abate correspondeu a um peso médio de 440kg ou 14,66 arrobas. Neste trabalho também verificaram que o maior valor líquido apurado foi aquele em que os animais foram suplementados nas duas estações de seca e o menor no tratamento onde os animais não receberam suplementação. Os animais sem suplementação alcançaram peso vivo de abate (440kg) com 3,5 anos de idade.

III. CONCLUSÃO

Atualmente devido ao aumento da demanda de uma carne com qualidade e natural, sem resíduos de medicamentos, o Brasil surge como um enorme potencial para atender esta necessidade de mercado, pois possui condições ligadas tanto ao clima, quanto ao animal e às pastagens para produzir o boi "ecológico, natural ou verde". Frente à isto não há condições de continuar trabalhando com os baixos índices de produtividade, tem-se, então, que maximizar as respostas com uso de tecnologias viáveis economicamente.

Uma condição necessária para produzir estes animais à pasto e a custo mais baixo é a otimização do sistema de produção, por meio de técnicas como:

  • correção e adubação do solo para maximizar a produção forrageira;
  • um correto manejo da pastagem aliado à incorporação de nitrogênio para proporcionar alimentos de alto valor nutritivo para os animais e altas cargas de suporte;
  • uma suplementação com proteína, energia e minerais para suprir as deficiências encontradas nas nossas pastagens tropicais em determinados períodos;
  • uma genética adequada para produzir animais adaptados e precoces;
  • um correto manejo sanitário e reprodutivo.

Os resultados alcançados refletirão em um abate mais cedo dos animais com aumento de produtividade (kg de carne/hectare/ano) da propriedade, bem como um aumento do capital de giro.

IV. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARRUDA, Z.F., FIGUEIREDO, R.F. Desempenho de novilhos em pastagem de Brachiaria decumbens submetidos a diferentes regimes alimentares. Revista Brasileira de Zootecnia, v. 27, n. 2, p. 246-254, 1998.

BARBOSA, F.A, VILELA, H., TAVARES, P.F. Efeito de diferentes misturas múltiplas no desempenho de animais nelore na época da seca. In: 1º Congr. Nordestino de Produção Animal, Fortaleza, 1998.

BERGAMASCHINE, A.F., ALVES, J.B., ANDRADE, P., ISEPON, O.J. Efeito da lotação sobre o desenvolvimento de novilhos Guzerá recebendo suplemento múltiplo, durante a época da seca. In: XXXV Reunião Anual da SBZ, v. 1, p. 230. Anais ..., Botucatu, 1998.

BISSCHOFF, W.V.A., QUINN, L.R., MOTT, G.O., ROCHA, G.L. Suplementações alimentares protéico-energéticas de novilhos em pastejo. Pesq. Agropec. Bras., v. 2, p. 421-436, 1967.

BOIN, C., TEDESCHI, L.O. Sistemas intensivos de produção de carne bovina. In: Simpósio sobre pecuária de corte. Anais..., Piracicaba, 1996.

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*Engenheiro Agrônomo, M.Sc. D.Sc. Consultor Técnico da Matsuda Minas.
** Médico Veterinário - Departamento técnico da Matsuda Minas.

 
     
 
   
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