PRODUÇÃO DE LEITE A PASTO OU EM CONFINAMENTO?

Leovegildo Lopes de Matos
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INTRODUÇÃO

Por três a quatro décadas após a II Grande Guerra Mundial os produtores de leite no Hemisfério Norte tiraram proveito dos baixos preços da energia elétrica, combustíveis, fertilizantes, pesticidas, máquinas e equipamentos e, com mecanização e utilização de animais de elevada produção individual, conseguiram aumentar os lucros das fazendas. Com as quedas contínuas nos preços do leite e com a elevação dos custos financeiros e dos combustíveis, as margens foram se estreitando e em muitos casos se tornaram negativas.

A tendência de intensificação da produção por animal e por área não é provável que continue, principalmente em países da Comunidade Econômica Européia, onde tal intensificação tem sido suportada por pesados subsídios. Os altos custos dos sistemas de produção subsidiados e da exportação de excedentes não são sustentáveis a médios e longos prazos. Além disso, as implicações do impacto desses sistemas intensificados sobre o meio ambiente têm levado a reformas das políticas ambientais nos países desenvolvidos na América do Norte e na Europa que visam a retrogradação no processo de intensificação dos sistemas de produção de ruminantes. Essa dita “intensificação” tem sido questionada também pela intensiva utilização de “insumos externos”, principalmente grãos.  A produção animal européia necessita da utilização do equivalente a sete vezes a área da Europa Ocidental para produção de grãos, em países do terceiro mundo, como provado pela Doutora Vandana Shiva, em 1998. De acordo com o Dr. R. T. Wilson, para a contabilidade da pecuária intensiva e moderna praticada na Europa, deveriam ser levados em consideração os milhões de “hectares fantasmas” cultivados, nos países em desenvolvimento, para suprir alimentos para os animais. Cita por exemplo, que o Reino Unido tem dois “hectares fantasmas” para cada hectare cultivado pelos seus fazendeiros e a Holanda cultiva dois milhões de hectares, mas importa produtos de 15 a 16 milhões de hectares para alimentar seu povo e seus animais.

Nos Estados Unidos da América, estudiosos mostram que fatores econômicos como mão-de-obra para manejo de animais, manejo de dejetos, conservação de forragem e taxas de descarte de animais, favorecem os rebanhos manejados a pasto. Como já mostrado por outros estudos, apesar da menor produção de leite dos rebanhos mantidos a pasto, os menores custos com alimentação e os menores gastos com os itens mencionados acima, lhes permitem concluir que esses sistemas são competitivos com os confinamentos tradicionais, naquele país.

PRODUÇÃO DE LEITE A PASTO

A utilização adequada de pastagens por rebanhos leiteiros pode reduzir os custos de produção de leite, principalmente pela redução nos dispêndios com alimentos concentrados, com combustíveis e com mão-de-obra. O conceito-chave é a substituição de combustível, máquinas e equipamentos pela vaca, no processo de colheita da forragem. O benefício imediato é de caráter econômico, com drástica redução nos custos de produção de leite. Além disso, os investimentos com instalações, especialmente aquelas destinadas ao abrigo de animais e maquinário, são menores quando se comparam sistemas a pasto com aqueles em confinamento.  Apesar da receita proveniente do leite produzido a pasto ser menor do que a do sistema em confinamento, a margem bruta tem sido superior.

Recentemente, colegas da Embrapa Gado de Leite reavaliaram nossos trabalhos com produção de leite a pasto, quando comparado com a produção leiteira, com animais confinados, com preços corrigidos para setembro de 2001, referendaram  suas próprias conclusões anteriores mostrando que os sistemas de produção intensiva a pasto supera em 34% a margem bruta obtida com vacas confinadas, recebendo dieta completa, apesar dos 20% de redução na produção das vacas mantidas a pasto. Eles reportam ainda uma vasta referência sobre as possibilidades de produção a pasto em relação aos sistemas intensivos em confinamento, com uma avaliação econômica detalhada.  

Dentro do ambiente econômico de busca da eficiência para competir no mercado, o produtor de leite deverá então substituir a velha equação “produção máxima = lucro máximo” por outra expressa da forma: “nível de produção ótimo = lucro máximo”.  Uma avaliação da utilização de pastagens por produtores de leite do Estado de New York mostrou que em média esses produtores conseguiram reduções nos custos de produção de US$ 153.00 por vaca por ano. Esse montante equivale a uma poupança de três centavos de dólar americano por litro de leite produzido. Pesquisadores da Pensilvânia mostraram que, com a utilização de pastagens, os produtores americanos tem conseguido elevar os retornos por vaca de US$ 85,00 a US$ 168,00 por ano. A redução nos custos de produção com a utilização de pastagens foi principalmente, devido à menor dependência do uso de máquinas e implementos, com menor dependência de energia e combustíveis e menos tempo gasto com manuseio dos dejetos animais.

Do ponto de vista da alimentação do rebanho, pasto é o mais barato de todos os alimentos para se produzir e utilizar. Além de se constituir num sistema de produção que requer menores inversões iniciais de capital, a produção de leite a pasto tem um menor impacto negativo sobre o meio ambiente do que os sistemas confinados. Os transtornos provocados pelo acúmulo de dejetos provenientes de rebanhos leiteiros confinados e os custos elevados inerentes ao manejo e distribuição desses dejetos constituem sérios problemas em países e regiões que adotam tais sistemas de produção de leite.

 As pastagens exercem duas importantes funções. Por um lado devem manter a cobertura vegetal do solo, de forma a manter a integridade de um ecossistema frágil e por outro servir de alimento para os animais que dependam do pasto como fonte de nutrientes. Apesar do possível antagonismo entre estas, o papel primordial do pastor (produtor, técnico) é reconciliá-las, de forma a tirar proveito, otimizando a rentabilidade da área em pastejo (objetivo de curto-prazo) e ao mesmo tempo mantê-la persistente e produtiva (objetivos de longo-prazo). 

Pesquisas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos da América buscaram comparar os solos de duas áreas diferentes, uma com pastejo leve e outra com pressão de pastejo mais elevada, ambas pastejadas por 11 anos consecutivos.  Esses solos foram comparados com o de uma terceira área, cercada, sem acesso a gado bovino ou grandes herbívoros silvestres, por 40 anos.  Os solos das duas áreas pastejadas melhoraram com o tempo, pois os níveis de carbono orgânico e nitrogênio aumentaram em relação ao solo da área sem animais.  Nenhuma dessa áreas foi fertilizada.

As pastagens exercem um importante papel como ecossistema eficiente no seqüestro de carbono e conseqüente efeito benéfico ao meio ambiente, amenizando o efeito estufa. No Brasil, a opção pela integração lavoura-pecuária, além de viabilizar economicamente a produção de grãos e a atividade pecuária, os sistemas de produção animal em pastagens sob plantio direto, podem, potencialmente, contribuir em grau de magnitude maior ainda no seqüestro de carbono. 

Infelizmente, os solos dedicados à produção de forragem, seja para corte ou pastejo, na maioria das nossas bacia leiteiras, estão degradados e erodidos.  Nesses solos os nutrientes que não foram perdidos pela erosão foram “carreados” para o meio urbano através do café, arroz, feijão, milho, carne e outros produtos agrícolas, ao longo das diversas lavouras conduzidas no passado. Esses solos hoje, sem a devida correção e reposição dos nutrientes só conseguem manter gramíneas pouco exigentes em fertilidade, como as braquiárias, que, por sua vez, mostram-se pouco produtivas nessas condições.  Para manter alguma produção de leite, o produtor muitas vezes é obrigado a utilizar alimentos concentrados, uma vez que as vacas em lactação não conseguem dessas pastagens contribuição adequada para a sua dieta. 

Muitas dessas pastagens estão em áreas montanhosas e pode-se suspeitar que, principalmente nas épocas mais quentes do ano, esses animais gastem mais energia na busca de alimento no pasto do que a energia contida na forragem consumida.  No inverno, com as baixas taxas de crescimento dessas forrageiras, a situação se repete, pela baixa disponibilidade de pasto.

Dos custos imputados ao leite, o item produção de alimentos e alimentação do rebanho é responsável pela maior proporção (de 40 a 60%) dos custos variáveis. O custo de produção de leite é inversamente proporcional à participação do pasto na dieta dos animais. Nos países com baixos preços do leite, os produtores conseguem reduzir o custo de produção pelo aumento da participação do pasto na dieta das vacas leiteiras.

O produtor que tiver que mudar na busca de eficiência deve fazê-lo com a formação e manejo de pastagens produtivas, em que os animais tenham condições de selecionar uma dieta de boa qualidade e as pastagens tenham disponibilidade de forragem suficiente para suprir fração expressiva da dieta daqueles.

As tentativas feitas no passado de se trabalhar em sistemas de produção a pasto com baixos níveis de insumo e utilizando forrageiras menos exigentes em fertilidade e adaptadas às condições de solos ácidos ou tolerantes a toxidez por alumínio, conseguiram níveis de produtividade muito baixos. Com tais níveis de produtividade, o custo de produção por quilograma de leite produzido ficava sempre muito elevado, em função dos custos fixos, principalmente aqueles relativos a terra, rebanho e benfeitorias. O mesmo pode ser dito das tentativas de se manter pastagens tropicais consorciadas com leguminosas, muito em moda 15 a 20 anos atrás, principalmente na Austrália. Estas pastagens, em associação com forrageiras de inverno, não se mostraram confiáveis e suportavam cargas relativamente baixas de animais. A maioria da pastagens tropicais na Austrália agora constituída de gramíneas fertilizadas com nitrogênio, em razão da elevada capacidade de suporte conseguida, com manejo bem mais simplificado dessas pastagens.

Com carga de duas vacas/ha, consegue-se aumento da produção anual de leite de 4.000 kg/ha ao se aumentar à aplicação de N de zero para 300 kg/ha. O custo total do nitrogênio, fósforo e potássio necessários para manutenção dessas pastagens fica em torno de A$ 340,00/ha (dólares australianos /ha) comparado com um aumento de receita de A$ 1.000,00/ha.

Estudos de avaliação bio-econômica mostraram que, para o caso de gado de corte, a situação é semelhante. Os benefícios econômicos são otimizados se todas as áreas bem drenadas fossem cultivadas com gramíneas fertilizadas com nitrogênio. Uma análise de sensibilidade indicou que o preço da carne deveria estar abaixo de A$ 0,80 por kg de peso vivo, para que as pastagens consorciadas suplantassem economicamente as pastagens de gramíneas com nitrogênio.

MANEJO DA PASTAGEM

A Embrapa Gado de Leite tem recomendado um sistema de pastejo bastante simplificado, com 11 piquetes, que com o pastejo intermitente ou sistema de lotação rotacionada, com três dias de ocupação por piquete, o que garantirá 30 dias de descanso.

Quando os animais ocupam um piquete durante vários dias, o valor nutritivo da forragem consumida, mais alto no primeiro dia de pastejo, cai com o avanço no período de ocupação. Conseqüentemente, observam-se oscilações na produção de leite das vacas. Essas oscilações estão associadas com a disponibilidade de forragem e seletividade no pastejo. Com isso, no primeiro dia, além do maior consumo de matéria seca, a forragem consumida apresenta valor nutritivo mais elevado, pela maior disponibilidade de folhas. Dessa forma, a produção de leite, aumenta do primeiro para o segundo dia e baixando novamente no terceiro dia de ocupação.

O capim-elefante manejado dessa forma, com pastejos intermitentes a cada 25 a 30 dias de descanso, com 200 kg de N/ha/ano, pode suportar por períodos curtos, de dois a três anos, cargas bastante elevadas. Trabalhos conduzidos na Embrapa Gado de Leite mostraram aumento de cerca de 1.750 kg de leite/ha em 180 dias do período chuvoso por vaca adicional por hectare, quando se compararam cargas de cinco, seis ou sete vacas/ha.

As gramíneas tropicais são plantas extremamente eficientes no processo fotossintético, acumulando grandes quantidades de biomassa, de forma muito rápida. Por outro lado, esse rápido crescimento vem acompanhado de rápido amadurecimento, com queda precoce do valor nutritivo da forragem produzida. Amostras de capim-elefante obtidas através de pastejo simulado, durante o período chuvoso, apresentaram queda de 15,5 para 13,5% de proteína bruta e de 68,5 para 65,1% de digestibilidade in vitro da matéria seca, com o alongamento do período de descanso de 30 para 45 dias. Esse é um dos fatores responsáveis pela queda na produção de leite de vacas que pastejam gramíneas tropicais com idade de rebrota superior a 25-30 dias.

A principal razão, entretanto, é a menor disponibilidade de área em função da redução necessária do tamanho dos piquetes à medida que se alonga o período de descanso, nos sistemas de pastejo rotativo. O menor consumo e a qualidade inferior da ingesta selecionada por animais em pastejo rotativo com períodos de descanso longos podem estar associados à queda de qualidade da forragem disponível, de idade mais avançada, e da menor área de pastagem diariamente alocada para cada animal.

Quando se compara 30 contra 45 dias de descanso, com uma carga de cinco vacas/ha, a área diária disponível para o primeiro caso é de 60,6 m2/vaca, cerca de 50% superior àquela alocada para manter um período de descanso de 45 dias, que é de 41,7 m2/vaca. Ao se avaliar as produções de leite, cada semana de descanso após 30 dias levava a uma perda de cerca de 0,7 kg/vaca/dia ou 528 kg de leite por hectare em 180 dias de pastejo, no período das águas.

Com 30 dias de descanso e três dias de ocupação, pode-se manejar a pastagem com 11 piquetes, isto é, com menores custos iniciais com subdivisões da pastagem e menores desperdícios de área com corredores. É possível planejar as divisões para dar livre acesso a uma área comum, com sombra, cocho e bebedouro, que pode servir de “malhador” para as vacas, tendo o piquete do dia, aberto para permitir o pastejo.

Quaisquer tentativas de “inovação” ou “sofisticação”, tais como: períodos de ocupação e descanso variáveis, carga animal variável, acesso ao piquete em função da disponibilidade de forragem em vez de ordem seqüencial fixa, divisão das vacas em grupos (ponteiras e seguidoras ou líderes e “rapadoras”), além de não trazerem benefícios em termos de aumento de produção de leite por hectare ou por lactação, são complicadores de manejo injustificáveis. Pesquisadores britânicos compararam pastejo em faixas de acordo com a disponibilidade diária de forragem contra um sistema de pastejo rígido, com área por vaca e ciclo de pastejo pré-determinado, com o sistema rígido permitindo maior taxa de lotação e maior produção por hectare. Pesquisas em outras regiões não mostraram vantagens em adotar um sistema de pastejo rotativo flexível em relação a um sistema mais simples de pastejo rotativo rígido.  O sistema com vacas líderes, em início de lactação, ocupando o piquete antes das vacas seguidoras ou “rapadoras” de menor produção, acarreta em aumento de produção das vacas em início de lactação, mas com a lactação total prejudicada pela queda excessiva na produção de leite dessas vacas, quando passam a compor o grupo de seguidoras, ao final da lactação. 

A avaliação das pastagens através de uma variável de característica estática, como disponibilidade de forragem antes do pastejo, expressa em kg de MS/ha, dá uma idéia distorcida do que realmente ocorre num sistema dinâmico como o pastejo intermitente. Estudos conduzidos na Embrapa Gado de Leite mostram, para piquetes manejados com 30, 37 e 45 dias de descanso, disponibilidades de folhas de 1.745, 1.939 e 2.423 kg MS/ha, respectivamente. Esses valores podem levar a uma falsa indicação de elevação da capacidade de suporte com o aumento do período de descanso. Entretanto, cada piquete manejado com 30 dias de descanso seria utilizado cerca de 12 vezes ao ano contra somente oito vezes para cada piquete manejado com 45 dias. Além disso, para 30 dias de descanso serão necessários piquetes com área quase 50% superior aos necessários para manejo com 45 dias. Como conseqüência, as disponibilidades de folhas ao longo do ano, perfazem, respectivamente: 20.550, 18.615 e 19.226 kg MS/ha/ano, para os referidos períodos de descanso, respectivamente.

Em estudos com Panicum maximum, conduzidos em São Paulo, mostraram aumento na disponibilidade média de matéria seca de forragem (em kg/ha/pastejo) com a redução na freqüência de pastejos, tanto para a cultivar Mombaça quanto para a Tanzânia.  Após calcularmos, com os dados publicados pelos autores, as disponibilidades de folhas durante o ano, a “aparente vantagem” favorável aos pastejos menos freqüentes se inverte, com o período de descanso de 28 dias apresentando disponibilidade de folhas 29% superior àquela obtida com pastejos a cada 48 dias, 43.390 versus 33.664 kg MS/ha/ano, para a cv. Mombaça.

As gramíneas do gênero Cynodon (estrela, bermuda e seus híbridos) apresentam um elevado potencial forrageiro principalmente por sua elevada resposta à fertilização, grande capacidade de adaptação a diversas condições de solo, clima e utilização para produção animal.

A Embrapa Gado de Leite tem trabalhado com Cynodon (coast-cross) para pastejo, com resultados muito animadores. Basicamente os trabalhos desenvolvidos até agora tem avaliado o coast-cross para vacas holandesas de elevado potencial genético, em pastejo em sistema de lotação rotacionada, com irrigações estratégicas, utilizando-se 390 kg de N/ha/ano.

As faixas foram pastejadas de forma a deixar um resíduo pós-pastejo em torno de 20 a 25 cm de altura. Com esse manejo tem-se conseguido manter em torno de cinco a sete vacas por hectare, com períodos de descanso de 24 dias no período das chuvas e de 32 no período da seca. As avaliações conduzidas até agora mostraram que essa gramínea tem um potencial para permitir produções de leite de 60 a 90 kg/ha/dia, com suplementação com três ou 6 kg de concentrado, respectivamente.

O primeiro trabalho conduzido na Embrapa Gado de Leite comparou um grupo de vacas mantidas em pastagem de coast-cross recebendo três kg/vaca/dia de concentrado, com um segundo grupo mantido estabulado, recebendo dieta completa com cerca de seis kg/vaca/dia de concentrado nessa mistura.  O grupo mantido em confinamento produziu em média 5.768 kg de leite/vaca, em 280 dias, enquanto o grupo a pasto produziu 4.648 kg/vaca, no mesmo período – uma redução de 19,4% na produção de leite.  A margem bruta obtida com o grupo a pasto, no entanto, foi 34,4% superior àquela margem obtida com o grupo confinado, em função da redução de 55,3% nos custos de produção (Tabela 2).

TABELA 1. Custos operacionais, receitas e margens brutas dos sistemas de produção de leite com vacas Holandesas, em pastagem de coast-cross e em confinamento.

  Confinamento Pastagem Diferença (%)
Leite (kg/vaca/dia) 20,6 16,6 19,4
US$/vaca/40 semanas      
           Receitas 807,52 650,72 19,4
           Custos 484,43 216,65 55,3
           Margem Bruta 323,09 434,65 - 34,4

Adaptado de VILELA et al. (1996).

SUPLEMENTAÇÃO COM CONCENTRADOS

Os pastos tropicais podem, potencialmente, suportar produções diárias de leite de cerca de 12 kg/vaca, sem suplementação. As forrageiras tropicais limitam a produção de vacas de alto potencial, principalmente pela baixa digestibilidade e baixo consumo.

Para níveis diários de produção acima de 12 - 15 kg de leite por vaca, torna-se necessária à incorporação de forragens conservadas de alto valor nutritivo e de concentrados energéticos e protéicos. Os concentrados têm as vantagens da maior eficiência em razão do baixo incremento calórico e de serem de fácil manuseio, transporte e armazenamento. Entretanto, devem ser economicamente competitivos, como acontece na América do Norte, em alguns países europeus e em Israel. Outro exemplo é a Austrália, onde é possível ao produtor de leite trocar 1 kg de leite-cota por 2,8 a 4,2 kg de concentrado ou 1 kg de leite extra-cota por 1,3 a 1,9 kg de concentrado.

No outro extremo temos a Nova Zelândia, onde prevalece um sistema de pagamento baseado nos preços internacionais do leite. Os produtores, para manter os custos de produção reduzidos, utilizam o máximo do potencial das pastagens, sem uso de forragens conservadas ou concentrados.

Os índices econômicos estão, logicamente, na dependência dos preços relativos entre o leite pago ao produtor e seus dispêndios, principalmente com mão-de-obra, concentrados, fertilizantes, máquinas, equipamentos e combustíveis. Se o produtor gasta R$ 3,00 para alimentar uma vaca confinada, e se o custo da alimentação está em torno de 40% do custo total de produção do leite, essa vaca custaria R$ 7,50 por dia, e com o leite vendido a R$ 0,25, esta teria que produzir 30 kg de leite por dia, para pagar seu custo diário.

Tomemos como exemplo a Nova Zelândia, que tem seu setor leiteiro direcionado para o mercado internacional, que na realidade irá ditar o preço a ser praticado internamente. Com preços tão baixos, os produtores têm que manter seus custos de produção muito reduzidos, dependendo basicamente do alimento de custo mais baixo, o pasto. Não podem, de forma alguma, depender do uso de suplementos concentrados, com a mínima dependência de mão-de-obra, equipamentos, máquinas e forragem conservada. Os sistemas de produção prevalentes naquelas condições usam de uma época de parição estrategicamente sincronizada com o período de crescimento dos pastos. Essa filosofia de trabalho, que se baseia no uso mínimo de insumos com custos elevados, significa que a ação mais econômica quando falta forragem na pastagem é deixar as vacas com fome.

Em países como a Austrália, com excedentes da produção de grãos, com baixo valor de mercado, tendência, nas décadas passadas, foi de aumento da produção por vaca com a utilização de forragens conservadas, irrigação e principalmente grãos baratos, como já discutimos anteriormente.

Em experimentos com vacas da raça holandesa pastejando coast-cross, foram testados, na Embrapa Gado de Leite, dois níveis de suplementação, três ou seis kg/vaca/dia de concentrado. Foram obtidas produções diárias de leite de 16,6 e 19,6 kg/vaca, respectivamente, no período seco do ano e 17,4 e 20,5 kg/vaca, no período chuvoso. 

Nos experimentos já concluídos temos conseguido produzir até 13,5 kg de leite/vaca por dia, durante o período chuvoso do ano, sem suplementação com concentrados, em pastagens de capim-elefante adubadas com 200 kg de N/ha por ano, com cinco vacas/ha. Com o fornecimento diário de 2 kg de concentrado por vaca, foram obtidos incrementos da ordem de 0,6 kg de leite por kg de concentrado consumido. Devido ao efeito de substituição pela suplementação com concentrados para animais em pastagens tropicais, têm sido verificadas respostas de 0,3 a 0,6 kg de leite por kg de concentrado fornecido, em experimentos de curta duração e de 0,9 a 1,4, em experimentos de longa duração e em testes de tecnologia em fazendas produtoras de leite, no Norte da Austrália.

OPÇÕES PARA O PERÍODO DA SECA

Vários trabalhos técnicos têm mostrado que durante o período da seca, dentre as opções testadas de sistemas de produção de volumosos para alimentação suplementar de vacas em lactação, no Brasil, o fornecimento de cana-de-açúcar picada com uréia e enxofre, tem mostrado vantagens econômicas diante dos outros volumosos, como capineiras, fenos e silagens.

O sistema de pastejo intermitente, com fornecimento de cana-de-açúcar com uréia e enxofre (na forma de sulfato, carbonato ou mesmo flor de enxofre) tem sito difundido entre os produtores de leite através de testes de tecnologia e unidades demonstrativas em diversas propriedades rurais, em condições edafoclimáticas diferentes daquelas das estações experimentais. A adoção dessas tecnologias pelos produtores tem mudado o perfil da pecuária em muitas bacias leiteiras no Brasil, viabilizando economicamente a atividade, com competitividade e sustentabilidade da atividade leiteira. Nossos técnicos e nossos produtores que desenvolvem, difundem e utilizam sistemas de produção e sistemas de alimentação para a época seca com cana-de-açúcar, são aqueles que estão, realmente, na vanguarda mundial em pecuária leiteira tropical, fato reconhecido pelo PNUD, ao agraciar a Embrapa Gado de Leite, como a experiência inovadora escolhida para compor uma série de publicações com relatos de casos de sucesso de segurança alimentar, reportado no capítulo intitulado “The Sweet Success: Brazil” (http://tcdcwide.net/tcdcweb/experiences/scitech/cases/st1braz.htm).

No caso da irrigação de pastagens, alternativa muito promissora, com os novos recursos tecnológicos disponíveis, ao se trabalhar diretamente com o produtor, é possível que alguma vantagem subjacente possa ocorrer, como aconteceu, em função das condições climáticas das Regiões Norte de Minas e Leste Mineiro, que permitem que a resposta do capim-elefante à irrigação seja superior à esperada em função de resultados obtidos na Zona da Mata de Minas Gerais. Um dos exemplos mais contundentes é o de um dos trabalhos instalados na Região Norte de Minas Gerais, em que se utilizou o manejo aqui preconizado, com 300 kg de N/ha/ano e irrigação e se obteve resposta média em produção de leite de 12,6 kg/vaca/dia.

Esses trabalhos utilizam sistemas convencionais de irrigação, que quando comparados com sistemas modernos, de baixa pressão, requerem maior potência para bombeamento de água; maiores custos operacionais e de manutenção; alta demanda de mão-de-obra para deslocamentos de tubos de conexão rápida, com desconforto para os operadores; além do maior investimento inicial para sua implantação.

Nas Regiões dos Vales do Rio Doce e Mucuri, vários projetos já foram implantados com a utilização de sistema de irrigação de baixa-pressão. Este utiliza tubulação fixa de PVC rígido, com tubos de baixo calibre, instalados subterraneamente, o que possibilita implantação e operacionalização com custos bastante reduzidos, principalmente mão-de-obra, manutenção e custo energético.  Com tais sistemas de irrigação, é possível manter os níveis de fertilização do solo recomendados, com baixo custo, pelo uso da fertirrigação.

Com tais projetos implantados, tem-se conseguido produções superiores a 250 toneladas de cana-de-açúcar por hectare.  Com pastagens irrigadas, alguns sistemas têm mantido de cinco a sete vacas mestiças holandês: zebu por hectare, utilizando-se Brachiaria decumbens, B. brizantha ou coast-cross. Com capim-Elefante, cv. Pioneiro e Panicum maximun, cv. Mombaça, Tanzânia ou Colonião, os trabalhos conduzidos no Campus da UNIVALE, em Governador Valadares, MG, num convênio com a Embrapa Gado de Leite, foram registradas produções em torno de 40.000 kg de leite/ha/ano. Outro grupo coordenado pela FAZU, de Uberaba, MG, tem trabalhado na implantação de vários projetos de irrigação de pastagem, mostrando que os custos de produção, por unidade de leite produzido, mostram que esse sistema é altamente vantajoso, sob o aspecto econômico. Trabalhos da Embrapa Gado de Leite mostram que a irrigação é responsável por apenas dois centavos de Real por litro de leite produzido.

Para as referências bibliográficas, favor contactar o autor.

 
     
 
   
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