Uso intensivo de tecnologias em engorda de bovinos - aspectos técnicos e econômicos

Fabiano Alvim Barbosa

Médico Veterinário, M.Sc.
Doutorando Produção Animal
Professor Pós-Graduação
Universidade de Brasília
fabianoalvim@unb.br

Herbert Vilela

Engenheiro Agrônomo, D.Sc.
Consultor técnico
vilela@agronomia.com.br

1 - INTRODUÇÃO

   A a maior parte do rebanho brasileiro (38,74%) situa-se em áreas entre 100 e 1.000 ha, categoria em que se encontram apenas 9,35% dos estabelecimentos nacionais. Em seguida, destacam-se áreas maiores de 1.000 ha, que englobam 27,19% do rebanho nacional, distribuídos em apenas 0,94% dos estabelecimentos. Em áreas entre 10-100 ha, dispõe-se 24% do rebanho, sendo 34,06% dos estabelecimentos responsáveis por este rebanho. Por último, estão os estabelecimentos com menos de 10 ha, que representam somente 8,25% do rebanho e 43,96% dos estabelecimentos. Dessa forma, verifica-se que apesar da maior parte dos estabelecimentos encontrar-se em áreas com menos de 100 ha, a maior parte do rebanho bovino encontra-se em poucas e maiores propriedades.

Apesar da maioria do rebanho estar localizada em fazendas de médio a grande porte é comum a falta de gestão técnica-administrativa nestas propriedades. A falta de controle dos custos faz com que os pecuaristas orientem-se em apenas um ou poucos parâmetros para tomar a decisão de vender os animais. Relações de troca comparando o preço do boi gordo com o preço de animais para reposição e/ou insumos tem suas limitações, pois o aumento do custo dos demais insumos (vacinas, ração, mão-de-obra, etc.) não modifica estas relações, mas afeta o custo da arroba produzida. Dessa forma, a própria melhoria tecnológica da produção, com conseqüente redução de custos totais, deveria alterar a "regra" de comercialização dos pecuaristas.

Nas situações de baixa produtividade (média brasileira), a busca por aumento da eficiência produtiva e econômica é necessária. O aumento da produtividade, normalmente, provoca redução do custo operacional total unitário (somatório do custo operacional fixo + operacional variável dividido pelas unidades produzidas). O custo de produção deve ser entendido de maneira global dentro do sistema de produção e não isoladamente em segmentos do sistema de produção (adubação e irrigação de pastagens, confinamento, etc.), procurando sempre maximizar o lucro da atividade.

2 - ÍNDICES ZOOTÉCNICOS COMO FERRAMENTA NO PROCESSO DE GESTÃO

Índices zootécnicos são aqueles cuja interação resulta na produção propriamente dita. Esses fatores podem ser analisados através de índices que permitam verificar o nível produtivo e reprodutivo do rebanho. Dentre os índices zootécnicos preconizados destacam-se, idade ao primeiro parto e ao abate, taxa de natalidade e desmama, taxa de desfrute, taxa de mortalidade, entre outros.

A utilização de índices zootécnicos dentro da empresa rural pode ser uma ferramenta importante na avaliação da capacidade produtiva do negócio. Os coeficientes dos indicadores dos diversos fatores zootécnicos citados anteriormente não são totalmente conhecidos pelos diferentes sistemas de produção observados no Brasil. No entanto, o empresário, juntamente com o técnico, devem mensurar e classificar os diferentes fatores zootécnicos dentro da propriedade, segundo cada sistema, identificando unidades produtoras de referência, ou benchmark, para constatar em que prática, processo e coeficiente de desempenho técnico e econômico elas são benchmarking. Benchmarking é uma abordagem que algumas empresas utilizam para comparar suas operações com outras.

Tabela 1 – Índices zootécnicos médios do rebanho brasileiro em diversos sistemas de produção.

Índices Sistema
Melhorado
Sistema Tecnologia Média Metas
Natalidade > 70% > 80% 80 – 90%
Mortalidade até a desmama 6% 4% < 3%
Taxa de desmama 65% 75% > 77%
Mortalidade pós-desmama 3% 2% < 1%
Idade à primeira cria 3-4 anos 2-3 anos 14 - 24 meses
Intervalo de partos 18 meses 14 meses 14 meses
Idade de abate 3 anos 2,5 anos 15 a 24 meses
Taxa de abate – completo 20% 22%  > 30 %
Taxa de abate – recria / engorda     > 60%
Taxa de abate - engorda     99 a 100%
Peso da carcaça 220 kg 230 kg 240 kg
Lotação 1,2 cab/ha 1,6 cab/há  > 1,0 UA / ha 
Produção - @/ha/ano     > 6 @

Fonte: Adaptado de Zimer e Euclides Filho, 1997.

Como mostra a Tabela 1, os pecuaristas devem atingir o sistema com média tecnologia, e aqueles já atigiram, devem melhorar estes números para maximizar a produtividade na propriedade buscando as metas listadas.

3 - TAXAS DE RENTABILIDADE DOS SISTEMAS DE PRODUÇÃO

Com a introdução das tecnologias ocorre um aumento dos custos operacionais variáveis necessitando de maiores desembolsos no fluxo de caixa da empresa rural. Em contrapartida o aumento da produção (bezerros desmamados, arrobas produzidas, animais abatidos, etc.) tende a diluir os custos operacionais fixos (depreciações e despesas fixas) fazendo com que o custo operacional total unitário seja menor. Esses resultados serão melhores ou piores em função da região (preços de insumos, terra e de arroba) e escala de produção ou tamanho da propriedade. As taxas de rentabilidades mais baixas, normalmente, são de fazendas em regiões com preços de terras mais elevadas, e as taxas mais elevadas de rentabilidade são de fazendas localizadas em terras mais baratas (Tabela 2). Essas taxas também variam em função do sistema de produção, local, escala e nível de intensificação (correção e adubação de pastagens, suplementação nutricional, inseminação artificial, etc.).

Tabela 2 – Diferentes taxas de retorno do capital investido para sistema de 5.000 UA  em função dos sistemas de produção.

  Retorno Anual %
Cria  
Extensiva 0,2 a 4,7
Semi-intensiva 0,2 a 4,4
Intensiva - 0,2 a 2,6
Recria e Engorda  
Extensiva 0,5 a 5,1
Semi-intensiva 0,6 a 6,2
Intensiva 1,2 a 7,7
Cria, Recria e Engorda  
Extensiva 0,3 a 5,2
Semi-intensiva 0,5 a 5,7
Intensiva 0,6 a 5,0

Fonte: Anualpec, 2006.

De uma maneira geral as taxas de rentabilidades do sistema de cria são mais baixas, o sistema de recria/engorda mais alta e o ciclo completo intermediário. O sistema de cria normalmente é feito em locais de terras menos férteis, com forragens de menor produtividade (braquiária humidícola, decumbens, andropogon, capim nativo do Pantanal e dos campos do Sul do Brasil, etc.) e valor nutricional mais baixo (demanda nutricional do sistema de cria é mais baixo). O sistema de recria/engorda necessita de terras mais férteis com maior produção de forragens (braquiária decumbens, braquiarão, Panicum sp., entre outros) e melhor valor nutritivo. O sistema completo necessita de áreas maiores para ter escala de produção e áreas com fertilidade para terminarem os animais.

O sistema de cria, normalmente, é de menor produtividade (arrobas produzidas /hectare/ ano) em função de “perda” na eficiência reprodutiva (anestro, abortos, absorção embrionária, natimortos, etc.), menor eficiência nutricional (kg de ganho/kg de alimento consumido) da matriz e das taxas de mortalidade dos bezerros mais elevadas. A intensificação deste sistema deve ser analisado com critério, pois os riscos são maiores em função da menor produtividade quando comparado aos outros dois sistemas.

4 - USO DE TECNOLOGIAS NO AUMENTO DA PRODUTIVIDADE E RENTABILIDADE

Diversos são os trabalhos de pesquisas mostrando o aumento da produtividade da pecuária de corte bovina com o uso de tecnologias como suplementação nutricional estratégica, adubação de pastagens, rotação e/ou irrigação de pastagens, melhoramento genético animal, controle sanitário, entre outros. Entretanto, a maioria da pecuária brasileira continua aquém de suas reais potencialidades.

RECRIA E ENGORDA PARA ABATE

Ao avaliar a suplementação concentrada e/ou volumosa no contexto do sistema de produção com a redução da idade ao abate, com maior taxa de desfrute e aumento da produtivdade (@/ha/ano), normalmente, ocorrem aumentos da rentabilidade dentro do sistema. Esse aumento da produtividade é devido a melhor eficiência alimentar dos animais, com menor necessidade total (durante toda a vida do animal) de matéria seca e protéina com aumento do ganho de peso (Tabela 3).

Tabela 3 - Requerimentos de matéria seca e proteína por um novilho para engorda dos 150 a 450 kg de peso vivo.

GPD (kg) Tempo necessário (dias) Requerimento total
    Matéria Seca (kg) Proteína (kg)
0,50 600 4460 434
0,75 400 3052 310
1,10 273 1903 224

Fonte: Blaser, 1990.

Fazenda Bacu Pari – Sete Lagoas - MG

Ao analisar a propriedade Bacu Pari, Grupo Calsete Siderurgia, em Minas Gerais, em um sistema intensivo de engorda (rotação e adubação de pastagens e confinamento) conclui-se que a produtividade a pasto é elevada quando comparada à média do Brasil, e quando são somadas as arrobas produzidas no confinamento este números aumentam de 11 a 19% (@/ha) (Tabela 4). Os custos são das arrobas produzidas dentro de cada tecnologia, onde a produção a pasto torna-se mais barata. Mas, para o sistema obter alta produtividade torna-se necessário o confinamento estratégico para terminar a maioria desses animais do sistema. O sistema altamente intensificado necessita de um investimento mais elevado, portanto torna-se de risco mais elevado, entretanto, normalmente, obtém melhores taxas de rentabilidade onde o preço da arroba vendida é mais elevada.

Tabela 4 - Produção e custo de arrobas totais da Fazenda Bacu Pari, de acordo com o ano e a tecnologia empregada.

Ano Sistema Produção Total @ @/ha Custo Operacional
R$ / @
2004 Pasto 2.318 28,9 46,19
2004 Confinamento 2.100 102,4 65,04
  TOTAL 4.418 34,5 51,89
2005 Pasto 2.346 26,6 39,42
2005 Confinamento 1.436 71,8 85,11
  TOTAL 3.782 29,5 56,78
2006 Pasto 2.310 21,4 14,65
2006 Confinamento e Semi-confinamento 1.092 54,6 128,51
  TOTAL 3.402 26,6 47,40
  TOTAL GERAL 11.603   48,76
  Pastos 6.975   27,79
  Confinamento 4.628   80,35

* Custo não incluído a compra de animais.

Fonte: Barbosa, 2006 (dados não publicados).

Bovinos a pasto em sistema rotacionado – média de 3UA/hectare

Bovinos terimnados em confinamento na épcoa da seca.

O sistema de produção a pasto

Os bovinos são manejados em sistema de rotação, em 6 módulos de pastagens de Brachiaria brizantha cv. Marandu., cv. MG5 Vitória e Panicum maximum cv. Guiné (Tabela 5). A taxa de lotação média (2004 a 2006) é de 3 UA/ha, na época das águas (Tabela 6) e com ganho médio diário acima de 700 g/cab/dia, superior à média brasileira em pastagens extensivas (Tabela 7). A consequência da intensificação do uso das pastagens é representada pela elevada produção de arrobas anuais por hectare (Tabela 8), muito acima da média brasileira, que não passa de 4 arrobas/hectare/ano.

Tabela 5 – Esquema do manejo das pastagens de acordo com a forrageira, área e número de piquetes na Fazenda Bacu Pari.

Rotacionado Forragem Área (ha) No. piquetes Dias pastejo Dias descanso
1 Braquiarão 18 9 4 32
2 Guiné 14 7 5 30
3 Braquiarão 18 9 4 32
4 Braquiarão 24 12 3 33
5 Braquiarão 12 7 5 30
6 MG5 Vitória 20 1 alternado 30 a 35
TOTAL   106      

Tabela 6 – Quantidade de bovinos, peso médio e total em arrobas, e a taxa de lotação média anual, em pastagens adubadas, de acordo com a época do ano.

Época Qtde. bovinos Peso Médio (@) Peso Total (@) Taxa Lotação (UA/ha)
Jan-Jun / 2004 279 13,47 3.757,4 3,47
Set-Dez / 2004 425 10,4 4.412,0 3,40
Média 334 11,99 4.038 3,42
Jan-Jun / 2005 335 12,48 4.180,2 3,48
Set-Dez / 2005 332 9,90 3.286,5 2,50
Média 333 11,35 3.783 2,87
Jan-Jun / 2006 368 13,40 4.931,8 3,04
Jul- Ago / 2006 223 14,35 3.201,6 1,98
Média 326 13,61 4.437 2,74

Tabela 7 – Ganho médio diário de bovinos em pastagens adubadas, de acordo com a época do ano.

  Jan-Jun Set – Dez Total Médio
Ganho kg/cab/dia – 2004 0,789 0,303 0,694
Ganho kg/cab/dia – 2005 0,684 0,731 0,705
Ganho kg/cab/dia – 2006 1,046 - -

Tabela 8 – Produção de kg de peso vivo total, por hectare e arrobas por hectare, de bovinos em pastagens adubadas, de acordo com a época do ano.

Época Kg de Peso vivo Total Produzido Peso Vivo Produzido/ ha Arrobas Produzidas/ha
Jan-Jun / 2004 54.105 676 22,5
Set-Dez / 2004 15.459 193 6,4
Total 69.564 869 28,9
Jan-Jun / 2005 41.271 467 15,6
Set-Dez / 2005 29.120 331 11
Total 70.391 798 26,6
Jan-Jun / 2006 69.293 642 21,4

CONSIDERAÇÕES FINAIS

É necessário mensurar e avaliar economicamente o impacto do uso das tecnologias disponíveis para o aumento dos índices zootécnicos e produtivos nas diversas fases do ciclo de produção de bovinos, de acordo com cada sistema em particular, para que possa ser indicado técnica e economicamente as  tecnologias. O nível de intensificação deverá ser ditado pelos índices zootécnicos levantados inicialmente, isto é, com baixos índices produtivos, as medidas de manejo, de investimento menor, proporcionam retornos rápidos. Com o aumento gradativo dos índices produtivos devem ser introduzidas tecnologias de investimento mais elevado. A intensificação também está em função do capital disponível de investimento, o risco e a taxa de retorno de cada situação. O uso das tecnologias no sistema de produção tem que ser gradativo e coerente com os objetivos de produção, com coletas precisas dos dados para gerar as informações necessárias, buscando o aprendizado mútuo e contínuo de todos no sistema.

O planejamento técnico aliado ao financeiro é uma ferramenta imprescindível para verificar a viabilidade operacional e econômica das estratégias assumidas dentro do sistema e fornecer com maior precisão as informações necessárias para a tomada de decisão. A simulação técnica-econômica de projetos é uma maneira mais rápida e de menor custo para analisar os impactos das tecnologias em diversas situações.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANUALPEC. Anuário da Pecuária Brasileira. São Paulo: Instituto FNP, 2006.

BARBOSA, F.A., GUIMARÃES, P.H.S., LIMA, J.B.M.P. Planejamento e estratégias nutricionais como ferramentas para aumento na rentabilidade da pecuária de corte. In:  ENCONTRO DE MÉDICOS VETERINÁRIOS E ZOOTECNISTAS DOS VALES DO MUCURI, JEQUITINHONHA E RIO DOCE, 26, 2005,Teófilo Otoni, Anais ... Teófilo Otoni: SRMVM, 2005, p.28-43.

EL-MEMARI NETO, A. C. Gestão de sistemas de produção de bovinos de corte: índices zootécnicos e econômicos como critérios para tomada de decisão. In: SIMPÓSIO DE PRODUÇÃO DE GADO DE CORTE.,5,2006, Anais... Viçosa:UFV, 2006,  p.31-46.

IEL, SEBRAE, CNA. Estudo sobre a eficiência econômica e competitividade da cadeia agroindustrial da pecuária de corte no Brasil. 2000. Disponível em:
<http://www.cna.org.br/PublicacoesCNA/EstudosdasCadeiasProdutivas/Pecuaria de corte>.

Acesso em: 17.ago.2003.

ZIMMER, A. H.; EUCLIDES, V. P. B. Importância das pastagens para o futuro da pecuária de corte no Brasil. In: SIMPÓSIO DE FORRAGICULTURA E PASTAGENS: TEMAS EM EVIDÊNCIA, 2000, Lavras. Anais... Lavras: UFLA, 2000. p. 1-49.

ZIMMER, A.H.; EUCLIDES F.K. As pastagens e a pecuária de corte brasileira. In: SIMPÓSIO INTERNACIONAL SOBRE PRODUÇÃO ANIMAL EM PASTEJO.,1,1997, Anais... Viçosa:UFV, 1997, Simpósio,  p.379.

 
     
 
   
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